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CURVELANOS PISAM EM BRASAS E NÃO SE QUEIMAM

24/06/2018

O costume de andar de pés nus sobre braseiros sem sofrer queimadura remonta ao alvorecer da História. Antes de Cristo, em muitas seitas, os fiéis faziam isso em reverência às suas divindades. Cultuava-se assim a deusa Ferônia em lugares como Roma, Terracina, Preneste, Capena e Soracte. Desse modo, na Índia, eram adorados o deus Darma Rajah e sua esposa, Drobedé. O mesmo ocorria na Capadócia, no culto da Artêmia Parásia. Já nos primórdios da Terra de Santa Cruz, o brasileiro adquiriu o hábito de atravessar descalço, às 24h de 23 de junho, as brasas vivas do genetlíaco de São João Batista. Filho de Isabel e Zacarias, o profeta do deserto, que enfrentou Herodes e teve a cabeça decepada, é o único no hagiológio a ser festejado no dia do nascimento. Além dele, apenas a Virgem Maria e Jesus Cristo recebem tamanha glória. Em 1553, o jesuíta Fernão Cardim, no “Tratado da terra e da gente do Brasil”, observou que um dos eventos de que os índios mais gostavam era a festa são-joanina “porque suas aldeias ardem em fogos e, para saltarem as fogueiras, não os estorva a roupa”. (Risos). Em Curvelo, segundo a tradição oral, esse costume teve surgimento concomitante à formação mesma da paragem de Santo Antônio da Estrada. Mantém-se, ao longo dos séculos, alimentado por pessoas de diferentes idades e classes sociais. Imortalizaram-se com a façanha, dentre outros, alguns membros da família Borges Diniz, João Preto da Passaginha (pai do João Comunitário) e seu Levi da Bela Vista, este sempre escudado pela mãe, dona Ana Barbosa. Assisti a esse ritual, mais de uma vez, na Rua Genebra (FOTO), no bairro Bandeirante I, onde o servidor público Elói Pereira, com o apoio da esposa, Valdênia, familiares e amigos, sempre passeou tranquilamente sobre um tapete de carvões acesos, observado por uma multidão estarrecida. Cientistas afirmam que o fato de alguém caminhar sobre um leito de brasas e não sofrer queimadura nada tem a ver com questões de fé. Atuam aí, segundo eles, os princípios da condutividade e da capacidade térmicas. 

Newton Vieira